It was almost a year ago, but I still believe in what I said in my talk at the TEDxVimaranes: artisanal techniques should not be preserved.
From that moment on I have been stoping myself from using words like “conservation”, “tradition” and “memory”, and if there was a time when I used them it was because I didn’t know what they really meant in the context of what I had been defending. They mean “death”.
So, here’s the video, where you can see me make my case for artisanal high tech and its evolution for the future .
Unfortunately, it’s not subtitled, so you would have to understand a little bit of portuguese – yes, I know that’s very unlikely…
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Já foi há quase um ano, mas acredito cada vez mais naquilo que preparei para dizer na apresentação do TEDxVimaranes: o trabalho artesanal não deve ser preservado.
Desde então que tenho feito questão de remover do meu léxico palavras como “conservação”, “tradição” e “memória”, e se houve uma altura em que as proferi, foi porque não sabia o que queriam dizer no contexto do trabalho que tenho vindo a defender. – significam “morte”.
Por isso, fica aqui o vídeo, onde me podem ver a apresentar o meu caso a favor da alta tecnologia artesanal e da sua evolução para o futuro, e também a engasgar lá para o meio porque o vídeo não correu, que é para se rirem um bocado.
Ai menina Alice…
Confesso que as palavras deste post me deixaram deveras curiosa… Que pujança!
Confesso que tive que ver o vídeo duas vezes para achar que percebi.
Confesso que, a ter compreendido, tens razão naquilo que dizes e defendes e queres ver acontecer.
Confesso é que acho que nem sempre escolheste as palavras certas nem os exemplos mais convincentes.
Porque, se percebi bem, o que tu queres é mesmo continuar a preservar, a conservar e a manter vivas as tradições pitorescas (repara que referes que a técnica do Zé Machado é porventura uma “sedimentada ao longo de séculos”), como lhes chamas, que andam por aí muito escondidas debaixo das lãs dos cordeiros da tua foto. Queres é fazê-lo, não no passado, nem com o cheiro a mofo da memória nem dos livros de história, mas agora mesmo, e dar-lhes um toque que talvez nunca tenham tido ou que ainda não tenha sido apreciado duma forma eficiente: o da altíssima qualidade e o da grandessíssima utilidade. Ou seja, continuar a/o saber fazer manual como antigamente, ou até mesmo com algumas pequenas alterações, adaptando-o no seu aspecto estético aos dias que correm e aos que hão-de vir, ao mesmo tempo que gostarias de ver igualmente o modo como até aqui as características pitorescas da coisa (como se quem o fizesse fosse animal em extinção preservado no melhor dos zoos, fazendo piruetas para inglês ver) se orientasse, obviamente, e muito acertadamente, primeiro, para uma perspectiva mais moderna de ligar pessoas que fazem muito boas coisas mas não sabiam que havia mais como elas, nem que o seu trabalho pudesse ser tão complementar; segundo, que essa sua mais-valia (poder, como o apelidas) pudesse ser encarada numa perspectiva de mercado que não o do turista da cidade ou do outro lado da fronteira.
Acho que isso é um excelente caminho, o de fazer com que este saber fazer artesanal se torne quase corriqueiro, e que a ele muito esteja associado a marca de excelência e qualidade, precisamente, mas não só, porque são saberes que valem mais porque se apuraram com o tempo.
Não exactamente, Rafaela.
O que apresentei no TEDx não foi uma lista de coisas que eu faço, mas uma ideia em que acredito, que é na evolução da tecnologia artesanal por oposição à preservação de uma ideia falsa das coisas que se faziam “antigamente”.
Não quero continuar nada como “antigamente”. Não quero dar “toques” modernos. Não quero aliar design e artesanato para fabricar souvenirs de autor.
O que quero mesmo é perceber que tipo de conhecimento e experiência é que é valioso, porque isso tem lugar para evoluir para o futuro. Os registos que faço são uma base de técnicas que podem ser alteradas, trabalhadas, levadas para a frente. E não sou eu que tenho dedicação e tempo para as fazer evoluir – têm de ser os próprios artesãos na sua prática. Eles e quem mais quiser trabalhar com eles, seja de que área for.
Há pessoas que quando olham para a fotografia dos cordeirinhos vêem um defender das tradições (que não é a minha intenção), e há quem perceba que o objectivo é retomar a linha de evolução de um tipo de conhecimento que se estava a perder, e não preservar seja o que for.
Se é uma velhinha no meio do monte que tem o conhecimento que me interessa registar, para mim é tão bom como se for um jovem em ambiente urbano.
Só quero saber como é que eles fazem o que fazem, e porque é tão bom.
E o melhor disto tudo é que para o ano a minha opinião em relação a este assunto já terá novamente evoluído, tal como evoluiu bastante desde que dei início ao projecto. Assim espero eu.
Ai menina Alice…
Esqueci-me de te dizer isto…
http://www.projectotasa.com/
Se calhar já conheces e eu não, a não ser o site.
É bonito e os produtos também.
Claro que já conheço o Projecto Tasa, Rafaela.
A pesquisa deles é muito boa e o envolvimento com os artesãos também. Temos esse ponto em comum, que acho que é o mais difícil de encontrar por aí. No Projecto Tasa eles aprofundam de facto a aprendizagem de uma técnica e tentam reinventar o resultado.
Os nossos objectivos só divergem a partir daí, como deve ter reparado pelo comentário que lhe deixei anteriormente.
Alice, agradeço-lhe profundamente por me trazer outros mundos ao meu mundo. Parece-me que, enquanto artesã e também consumidora, o estímulo para que se faça mais e melhor consegue-se com um aumento do consumo das peças feitas segundo técnicas artesanais e, como sabemos, pelo tempo que demoram a fazer e também pelos materiais utilizados elas ficam muito caras para o consumidor comum. Julgo que é este o grande entrave para que este saber não se perca e evolua: o preço final. Bem sei que há pessoas despertas para estas questões e que valorizam os materiais de qualidade e o esmero de quem as faz, não se importando de pagar caro por uma peça bela e única mas a grande maioria das pessoas, ainda que sensível à beleza e qualidade, não as pode pagar. Tenho algum receio de que o trabalho artesanal continue a ser produzido para nichos de mercado, que continue a sobreviver e não a viver. Uma vida rica, saudável e próspera, para bem de todos.
Cristina, eu percebo o que diz, mas essa é uma questão demasiado complexa para ser resumida assim.
Artesanal não equivale necessariamente a caro. Industrial não equivale a barato e acessível.
Artesanal também não equivale sempre a muito bom e Industrial não equivale a falta de qualidade. E depois temos processos mistos de produção que baralham a categorização toda, mas que são muito válidos e interessantes.
Temos é de ter noção do que estamos a pagar em cada situação. Se essa análise for feita, vai ver que em muitos casos vai preferir pagar 1x mais caro por um produto muito melhor que lhe vai durar a vida toda, do que 10x por um produto fraco, porque vai ter de o comprar múltiplas vezes.
O problema talvez seja que o nosso raciocínio está formatado para o imediato. O meu incluído, que nasci e cresci numa sociedade de consumo rápido.
Eu gostei de rever novamente este vídeo (recentemente). Acho o projecto audaz, mas tem alma, tem braços que ousam fazer diferente. Faz-nos pensar (pensar muito) e faz-nos posicionar de forma diferente face ao consumo.
Tinha comentado antes de ler publicados estes dois últimos comentários e acrescento isto, concordando com o que disse a Alice: sou economista de formação (interesso-me naturalmente por estas questões do preço/qualidade/motivações do consumo) e sou também da geração do consumo rápido, do ter tudo à mão, mas (felizmente) cresci e fui educada numa família humilde da classe média e sempre aprendi que “os pobres têm que comprar bom porque só podem comprar uma vez”.
Sim o nosso raciocínio está formatado para o imediato, para o ter muito, mas sinto devagarinho algo começa a mudar…
Nem vou dizer o quanto adoro ver uma economista interessada neste tópico. Quem me dera que houvessem mais que levassem este assunto a sério.
Absolutamente brilhante, Alice! Conseguiste verbalizar de fome simples mas eloquente algumas coisas que já me tinham passado pela cabeça, mas também muita coisa em que nunca rinha pensado. Acho a tua palestra profundamente inovadora e inteligente. Parabéns!!
Muito obrigada, Constança!